O QUE ESTÁ SENDO ENSINADO EM NOSSAS ESCOLAS É,
DE FATO,
MATEMÁTICA?
O que se vê na grande maioria das escolas é a Matemática sendo ensinada sem a preocupação em
estabelecer vínculos com a realidade e nem com o cotidiano do aluno.
Ao analisarmos muitas aulas de Matemática veremos que o professor ao entrar em sala de aula,
coloca-se imediatamente à frente da turma no quadro-negro (Chagas, 2001a). De lá o professor se dirige a
todos, propõe questões, faz perguntas, demonstrações, exposições, correções, etc.
A postura do professor caracteriza claramente uma instauração do poder dele, mestre, sobre os
alunos, aprendizes.
Os mecanismos aparentes dessa concentração de poder conduzem, de maneira clara,
à identificação da autoridade com o autoritarismo; à não percepção do que os silêncios em sala indicam; à
ausência de diálogo no contexto da escola.
As formas de trabalho mais usadas na sala de aula ainda são os livros-texto e a exposição oral com
o resumo de matérias complementada com exercícios passados no quadro.
Um dos motivos do fracasso do ensino de Matemática esta tradicionalmente pautado em
manipulações mecânicas de técnicas operatórias, resolução de exercícios, que são rapidamente
esquecidos, assim como a memorização de fórmulas, tabuada, regras e propriedades.
Sabemos que estes professores utilizam a experiência que tiveram quando aprenderam, e que hoje
a estão empregando para ensinar. De certa forma, o professor utiliza para ensinar o sistema que aplicou
para aprender, ou seja, um sistema que se repete indefinidamente.
Neste sentido, cabe aqui uma única pergunta: o que está sendo ensino em nossas escolas é, de
fato, Matemática? É claro que quaisquer concepções de ensino da Matemática devem pensar sobre o que
está sendo ensinado, bem como sobre o significado, a gênese, a estrutura e a produção de conhecimentos.
Seja qual for a resposta para a questão anteriormente formulada, é fato que a abordagem adotada
na maioria de nossas escolas é mera transmissão de dados. Este tipo de informação é uma ajuda
imprescindível na compreensão das dificuldades que os alunos sentem no aprendizado da Matemática e,
que, em geral, o professor conhece de forma muito pr ecária.
Tais dificuldades residem no desenvolvimento dos limites que esta ciência apresenta, na
incompreensão das relações que se estabelecem entre ela e as outras áreas do conhecimento e na
impossibilidade de se ler e escrever Matemática.
O silêncio neste caso representa, antes de tudo, autoridade e autoritarismo.
É preciso desmistificar a sala de aula como ponto de encontro de alunos totalmente ignorantes com
o professor totalmente sábio a sua frente lhe repassando informações referentes ao conhecimento
matemático. Devemos entender a sala de aula como um local onde interagem alunos com conhecimentos
do senso comum, que almejam a aquisição de conhecimentos sistematizados.
O que está sendo ensinado em nossas escolas é, de fato, Matemática?
sofrerá modificações no seu modo de fazer o seu objeto principal como profissional: criação e
desenvolvimento de atividades educativas.
Um dos objetivos essenciais do ensino da Matemática é precisamente que o que se ensine esteja
carregado de significado, tenha sentido para o aluno. (Charnay, 2001, p. 36).
Para Bousseau (1983), o sentido de um conhecimento matemático se define não só pela coleção de
situações em que este conhecimento é realizado como teoria matemática ou como situações em que o
sujeito o encontrou como meio de solução, mas também pelo conjunto de concepções que rejeita, de erros
que evita, de economias que procura, de formulações que retorna.
Compreender o objeto do conhecimento matemático significa inicialmente ter consciência de que ele
tem algum tipo de existência e que essa existência é algo que depende de aspectos históricos e sociais.
Para isso, devemos inicialmente observar como a matemática se apresenta e compreender que a
investigação e a descoberta sempre se constituíram, ao longo dos séculos, como essenciais na Matemática,
bem como as suas fontes inspiradoras, um mundo exterior com seus problemas e sua própria estrutura
interna.
Cortella deixa este aspecto bem claro ao afirmar que
“Quando um educador(a) nega (com ou sem intenção) aos alunos a compreensão das condições
culturais, históricas e sociais de produção do conhecimento, termina por reforçar a mitificação e a sensação
de perplexidade, impotência e incapacidade cognitiva” (Cortella, 1998, p. 102).
A escola do século XXI tem por desafio formar pessoas aptas às mudanças, autônomas, solidárias
e criativas, que sejam capazes de lidar com as incertezas em busca de uma sociedade mais justa e uma
vida mais digna e solidária. Num mundo onde a criatividade é o novo paradigma para a resolução dos mais
variados problemas. Criatividade aqui é entendida como a capacidade de sermos suficientemente flexíveis
para sairmos do seguro, do conhecido, do imediato e assumirmos riscos ao propormos o novo, o possível.
O ensino de Matemática para nós é algo maior do que provocar o raciocínio lógico-dedutivo do
aluno, que tantas vezes aparece como objetivo da disciplina em planos de cursos. Através do conhecimento
da história da Matemática é possível compreender o presente, entender o passado e projetar o futuro. Além
disso, é muito mais fácil formar técnicos hábeis em cálculos do que cidadãos que questionem, cidadãos
críticos. Acredito ser esse um dos motivos para tanta resistência ao modo como deveríamos aprender e
ensinar Matemática: de modo reflexivo, crítico e historicamente localizada.
A participação do cidadão em uma sociedade moderna, complexa, requer, portanto, o
desenvolvimento de habilidades básicas, através de uma aprendizagem significativa, utilitária da
matemática, que o possibilite conquistar muito mais do que o exercício de direitos e deveres.
A missão dos educadores é, portanto, preparar as novas gerações para o mundo em que terão que viver.
A Educação Matemática deve visar a construção de um saber que capacite nossos alunos a pensar
e a refletir sobre a realidade, assim como a agir e transformá -la. Dessa forma, será possível que eles
encontrem a razão e o motivo para aprender matemática. E gostar!

